sexta-feira, 22 de abril de 2011

Segunda Página do Diário

"7 de fevereiro de 1897

Nesse momento estou no expresso a caminho de Queimadas, um município baiano próximo ao arraial dos sublevadores, e como terei tempo, posso narrar as duas primeiras expedições fracassadas.
Primeiramente devo ressaltar que o líder, Antônio Conselheiro, prega até hoje que é um ser enviado por Deus para combater os pecados republicanos. Contudo, é inconcebível compreender como uma pessoa em seu estado de sanidade pode querer retornar ao Estado monarquista após a nossa tão almejada Proclamação que melhorou muito a situação do país, levou a ordem até ele e ainda o conduzirá ao progresso.
A primeira expedição comandada pelo tenente Pires Ferreira foi realizada após o governo tomar conhecimento de que os seguidores do lunático conselheiro iriam invadir a cidade de Juazeiro, e então foram mobilizados militares do estado baiano. Contudo, Conselheiro já havia montado milícias armadas que derrotou as tropas, o que prova que eles já estariam preparados para nos confrontar.
Um mês após a primeira expedição foi realizada uma segunda com o comando do Major Febrônio de Brito, que foi composta por soldados de outros Estados nordestinos. Entretanto, como achavam que a população não era tão grande e não seria tão difícil combatê-la, não levaram  munição nem homens suficientes, o que surpreendeu o exército em uma emboscada. Embora tenham matado muitos conselheristas, as tropas não possuíam o necessário para prosseguir e acabar com esses revoltosos.
Apesar de nas duas expedições os militares terem regredido, não considero um total fracasso, uma vez que foram mortos muitos rebeldes. Devido aos extremos desgastes causados pelos confrontos, os militares foram obrigados a recuar muitas vezes, além de ter que lidar com emboscadas ardilosas feitas pelos rebeldes."


   
            Esta página do diário foi escrita, em um de seus poucos momentos de calmaria, meses antes do primeiro confronto de Moreira César com os insuportáveis revoltosos. Porém, antes analisar qualquer batalha, irei falar sobre o maníaco que governava politica e espiritualmente o arraial de Canudos, o néscio Antônio Conselheiro.
             Antônio Vicente Mendes Maciel nasceu no dia 13 de março de 1830, na Vila de Quixeramobim, no interior do Ceará. Filho do comerciante Vicente Mendes Maciel e de Maria Joaquina de Jesus, desde cedo foi incentivado pelos pais a seguir a carreira eclesiástica, já que se consistia em uma das únicas formas de ascensão social – assim como a vila em que viviam e o sertão nordestino, eram muito pobres.
Com a morte do pai em 1855, sua carreira sacerdotal havia sido deixada de lado – infelizmente, o fanático prosseguiu mais a frente com sua vocação –, tendo que cuidar dos negócios da família, porém essa fase não durou por muito tempo. Ele casou-se com Brasilina Laurentina de Lima, uma filha de um tio seu, e muda-se para Sobral, onde passa a atuar como professor primário (e onde ele deveria ter ficado, esse lunático). Mais tarde passa a atuar como advogado, recebendo ridículas remunerações em troca de ajuda aos pobres.
Ele passa a se mudar constantemente de cidade para procurar melhores ofertas para seus ofícios – vai de Guaraciaba do Note, passando por Santa Quitéria, e chega até Ipu, onde sua vida desanda de vez. Ele flagrou sua mulher com o sargento de polícia em sua residência. Após o incidente, o acéfalo Antônio Conselheiro se tornou efetivamente louco, passando a pregar de cidade em cidade contra os “males” da vida republicana – o casamento civil e a cobrança de impostos (desde quando uma cidade funciona sem a cobrança de impostos?) – e dizia-se também ter sido enviado por Deus para acabar com as diferenças sociais. Com essas ideias, muitos civis ignorantes começaram a segui-lo pensando que ele, realmente, iria livrá-los da miséria do sertão. Outro detalhe: suas ideias foram utilizadas também por jagunços para justificar seus roubos e suas atitudes, evidenciando como as ideias de Conselheiro eram realmente utilizadas pelo povo, ou seja, uma péssima influência a ser combatida.
Um jornal da época de Sergipe chamado “O Rabudo” descreveu perfeitamente o estado deplorável de Conselheiro: “Há seis meses que por todo o centro desta Província e da Província da Bahia, chegado (diz ele) do Ceará, infesta um aventureiro santarrão que se apelida por Antônio dos Mares. O que, a vista dos aparentes e mentirosos milagres que dizem ter ele feito, tem dado lugar a que o povo o trate por S. Antônio dos Mares. Esse misterioso personagem, trajando uma enorme camisa azul que lhe serve de hábito a forma do de sacerdote, pessimamente suja, cabelos mui espessos e sebosos entre os quais se vê claramente uma espantosa multidão de bichos (piolhos). Distingue-se pelo ar misterioso, olhos baços, tez desbotada e de pés nus; o que tudo concorre para torná-lo a figura mais degradante do mundo” (O Rabudo, 22 de novembro de 1874).
Cansado de peregrinar pelo Brasil, Antônio Conselheiro e seu rebanho seguidores decidem se fixar às margens do Rio Vaza-Barris, no famoso e problemático arraial de Canudos. O seus habitantes – desabrigados dos sertão e vítimas da seca – viviam em uma comunidade sem impostos, com divisão de tarefas e comida, assim como uma sociedade comunista, ou seja, outro fator que se contradizia à manutenção do Estado republicano! Além disso, os adeptos consideravam o local, rebatizado pelo fanático Conselheiro de Bello Monte, como um “lugar santo”.
Antônio Conselheiro morreu um mês antes do fim da terceira batalha em seu arraial de Canudos (a qual irei especificar posteriormente), cujas causas da morte são desconhecidas. Sua cabeça foi cortada e levada para a Faculdade de Medicina de Salvador para ser examinada, pois na época acreditava-se que a loucura, a demência e o fanatismo deveriam estar estampados nos traços de seu rosto e crânio. E assim, o arraial de Canudos foi completamente destruído.

Corpo de Antônio Conselheiro. Foto tirada duas semanas após sua morte, por um fotógrafo a serviço do Exército.

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