sexta-feira, 29 de abril de 2011

Oitava Página do Diário

"2 de março de 1897

Na madrugada de hoje, nossas tropas partiram para o Angico, e às 11 horas da manhã paramos em uma fazenda abandonada na qual ficaremos instalados até a madrugada de amanhã. Eis o plano: descansaremos hoje o dia todo para amanha à noite ir para o Angico. Quando chegarmos, iremos descansar novamente e depois partir definitivamente para Canudos. Estou agora em um acampamento com a equipe médica e confesso que estou crente em nossa vitória. Estamos muito bem preparados e se caso houver algum ataque inimigo, voltaremos para Monte Santo onde fortificaremos nossa tropa. Mas acredito que isso não será necessário."

Sétima Página do Diário

"1º de março de 1897

Hoje pela manhã, durante uma leve chuva que caia aumentando o desânimo das tropas que seguiam para Canudos – o caminho fora difícil, o sol quente, terra árida, os contratempos, como ocorreu com a bomba de água, contribuíram para tal quadro – ocorreu um episódio um tanto quanto inesperado – eu não estava junto com as tropas, pois eu fiquei para trás devido a um ataque epilético que dei no dia 25. A tropa estava marchando e de sobressalto um alarme alertou-a de um possível inimigo se aproximando. Todos os combatentes se prepararam para lutar e quando se depararam me viram em cima de um cavalo chegando para me juntar a eles. No mais o dia hoje se sucedeu de forma tranquila."

Sexta Página do Diário

"22 de fevereiro de 1897

Iremos sair daqui a pouco dessa localidade, eu de cavalo tomarei a frente dessa tropa em direção a Canudos. Ontem, pela tarde, avaliamos o equipamento e recrutamos os batalhões e soldados. Serão ao todo 1281 homens com mai de 200 cartuchos para as armas, dentre eles há o 7º batalhão comandado pelo major Rafael da Cunha Matos, uma parte do 9º - já é a terceira investida dele – comandado pelo coronel Pedro Nunes Tamarindo, parte do 33º e 16º comandado pelo capitão Joaquim Quirino Vilarim, bateria de quatro Krupps do 2º regimento comandado pelo capitão José Salomão Agostinho da Rocha, parte da 9º cavalaria comandado pelo capitão Pedreira Franco, alguns guardas da polícia baiana, uma equipe médica e outra de engenheiros militares."       

terça-feira, 26 de abril de 2011

Quinta Página do Diário

"16 de fevereiro de 1897

Acabei de aprovar um levantamento destas terras áridas elaboradas pelos engenheiros militares Alves Leite e Alfredo Nascimento. Eles calcularam e mediram com um podômetro as melhores localidades para instalarmos uma linha de operações. Eles analisaram tudo: os acidentes naturais, o solo, a água e possíveis problemas que poderemos vir a ter. Dentro de uma semana vamos seguir estrada, sairemos daqui (Monte Santo) e iremos passar pelo arraial Cumbe e seguiremos a direção norte no rumo de Canudos. Acho que não vai ser necessário montar alguma base de defesa ou de recuo, espero ter sucesso nessa investida, mesmo assim temo que o insano do Conselheiro esteja nos esperando.   
Sabemos que a viagem será complicada, pois essa terra estiada e seca nos desgasta. Mesmo assim, vamos levar bombas artesianas, pois em determinadas localidades há como puxar a águas pelos lençóis subterrâneos."


Nesta parte do diário, Moreira César prepara-se para sua primeira investida contra a comunidade fanática de Canudos. Suas crises epilépticas ao longo de sua majestosa jornada o  atrapalham consideravelmente, o que torna difícil sua batalha contra o miseráveis de Canudos. Veremos mais a frente o início dos seus incríveis feitios bélicos.

Quarta página do Diário

"9 de fevereiro de 1897

Cheguei a Monte Santo. Ontem, antes do sítio de Quirinquiqua, dei uma crise epilética e fui examinado pelo grupo de médicos que estão me acompanhando nessa expedição. Mesmo que eu esteja afetado pela epilepsia, eu vou seguir em frente, permanecer firme para sufocar essa rebelião comandada por esse doentio e ainda conseguirei limpar a honra do exército brasileiro, pois não haverá uma quarta expedição, uma vez que desta eu sairei vitorioso!"

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Terceira Página do Diário

"8 de fevereiro de 1897

Hoje pela manhã, cheguei a Queimadas. Pois bem: essa é terceira expedição para Canudos, sendo que é a primeira regular. Estou junto do batalhão que comando, uma bateria do 2º Regimento de Artilharia e um esquadrão do 9º de cavalaria. Ao total são quase 1300 combatentes, 15 milhões de cartuchos e seis canhões Krupp.
  Acabei de telegrafar para o governador Luis Viana como estão as condições por aqui. Estou preocupado - não com medo, pois eu não o tenho - caso o insano do Antônio Conselheiro esteja nos esperando. Enfim, vamos nos preparar agora com mais vigor para chegar a Monte Santo."

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Segunda Página do Diário

"7 de fevereiro de 1897

Nesse momento estou no expresso a caminho de Queimadas, um município baiano próximo ao arraial dos sublevadores, e como terei tempo, posso narrar as duas primeiras expedições fracassadas.
Primeiramente devo ressaltar que o líder, Antônio Conselheiro, prega até hoje que é um ser enviado por Deus para combater os pecados republicanos. Contudo, é inconcebível compreender como uma pessoa em seu estado de sanidade pode querer retornar ao Estado monarquista após a nossa tão almejada Proclamação que melhorou muito a situação do país, levou a ordem até ele e ainda o conduzirá ao progresso.
A primeira expedição comandada pelo tenente Pires Ferreira foi realizada após o governo tomar conhecimento de que os seguidores do lunático conselheiro iriam invadir a cidade de Juazeiro, e então foram mobilizados militares do estado baiano. Contudo, Conselheiro já havia montado milícias armadas que derrotou as tropas, o que prova que eles já estariam preparados para nos confrontar.
Um mês após a primeira expedição foi realizada uma segunda com o comando do Major Febrônio de Brito, que foi composta por soldados de outros Estados nordestinos. Entretanto, como achavam que a população não era tão grande e não seria tão difícil combatê-la, não levaram  munição nem homens suficientes, o que surpreendeu o exército em uma emboscada. Embora tenham matado muitos conselheristas, as tropas não possuíam o necessário para prosseguir e acabar com esses revoltosos.
Apesar de nas duas expedições os militares terem regredido, não considero um total fracasso, uma vez que foram mortos muitos rebeldes. Devido aos extremos desgastes causados pelos confrontos, os militares foram obrigados a recuar muitas vezes, além de ter que lidar com emboscadas ardilosas feitas pelos rebeldes."


   
            Esta página do diário foi escrita, em um de seus poucos momentos de calmaria, meses antes do primeiro confronto de Moreira César com os insuportáveis revoltosos. Porém, antes analisar qualquer batalha, irei falar sobre o maníaco que governava politica e espiritualmente o arraial de Canudos, o néscio Antônio Conselheiro.
             Antônio Vicente Mendes Maciel nasceu no dia 13 de março de 1830, na Vila de Quixeramobim, no interior do Ceará. Filho do comerciante Vicente Mendes Maciel e de Maria Joaquina de Jesus, desde cedo foi incentivado pelos pais a seguir a carreira eclesiástica, já que se consistia em uma das únicas formas de ascensão social – assim como a vila em que viviam e o sertão nordestino, eram muito pobres.
Com a morte do pai em 1855, sua carreira sacerdotal havia sido deixada de lado – infelizmente, o fanático prosseguiu mais a frente com sua vocação –, tendo que cuidar dos negócios da família, porém essa fase não durou por muito tempo. Ele casou-se com Brasilina Laurentina de Lima, uma filha de um tio seu, e muda-se para Sobral, onde passa a atuar como professor primário (e onde ele deveria ter ficado, esse lunático). Mais tarde passa a atuar como advogado, recebendo ridículas remunerações em troca de ajuda aos pobres.
Ele passa a se mudar constantemente de cidade para procurar melhores ofertas para seus ofícios – vai de Guaraciaba do Note, passando por Santa Quitéria, e chega até Ipu, onde sua vida desanda de vez. Ele flagrou sua mulher com o sargento de polícia em sua residência. Após o incidente, o acéfalo Antônio Conselheiro se tornou efetivamente louco, passando a pregar de cidade em cidade contra os “males” da vida republicana – o casamento civil e a cobrança de impostos (desde quando uma cidade funciona sem a cobrança de impostos?) – e dizia-se também ter sido enviado por Deus para acabar com as diferenças sociais. Com essas ideias, muitos civis ignorantes começaram a segui-lo pensando que ele, realmente, iria livrá-los da miséria do sertão. Outro detalhe: suas ideias foram utilizadas também por jagunços para justificar seus roubos e suas atitudes, evidenciando como as ideias de Conselheiro eram realmente utilizadas pelo povo, ou seja, uma péssima influência a ser combatida.
Um jornal da época de Sergipe chamado “O Rabudo” descreveu perfeitamente o estado deplorável de Conselheiro: “Há seis meses que por todo o centro desta Província e da Província da Bahia, chegado (diz ele) do Ceará, infesta um aventureiro santarrão que se apelida por Antônio dos Mares. O que, a vista dos aparentes e mentirosos milagres que dizem ter ele feito, tem dado lugar a que o povo o trate por S. Antônio dos Mares. Esse misterioso personagem, trajando uma enorme camisa azul que lhe serve de hábito a forma do de sacerdote, pessimamente suja, cabelos mui espessos e sebosos entre os quais se vê claramente uma espantosa multidão de bichos (piolhos). Distingue-se pelo ar misterioso, olhos baços, tez desbotada e de pés nus; o que tudo concorre para torná-lo a figura mais degradante do mundo” (O Rabudo, 22 de novembro de 1874).
Cansado de peregrinar pelo Brasil, Antônio Conselheiro e seu rebanho seguidores decidem se fixar às margens do Rio Vaza-Barris, no famoso e problemático arraial de Canudos. O seus habitantes – desabrigados dos sertão e vítimas da seca – viviam em uma comunidade sem impostos, com divisão de tarefas e comida, assim como uma sociedade comunista, ou seja, outro fator que se contradizia à manutenção do Estado republicano! Além disso, os adeptos consideravam o local, rebatizado pelo fanático Conselheiro de Bello Monte, como um “lugar santo”.
Antônio Conselheiro morreu um mês antes do fim da terceira batalha em seu arraial de Canudos (a qual irei especificar posteriormente), cujas causas da morte são desconhecidas. Sua cabeça foi cortada e levada para a Faculdade de Medicina de Salvador para ser examinada, pois na época acreditava-se que a loucura, a demência e o fanatismo deveriam estar estampados nos traços de seu rosto e crânio. E assim, o arraial de Canudos foi completamente destruído.

Corpo de Antônio Conselheiro. Foto tirada duas semanas após sua morte, por um fotógrafo a serviço do Exército.

domingo, 10 de abril de 2011

Primeira Página do Diário

"1º de Fevereiro de 1897

            Dentro de dois dias, irei partir para sufocar mais uma insurreição contra o governo republicano. Assim, decidi escrever este diário para deixar meus relatos. Acho que essa revolta será muito fácil de vencer, pois é no meio do sertão nordestino e contra sertanejos monarquistas que não possuem experiência como eu e meu exército. Já lutei contra várias sublevações militares, como a revoltada da armada e a revolução federalista.
            Pois bem, eis o quadro dessa revolução: ela está ocorrendo no Estado da Bahia no arraial de Canudos, onde há várias pessoas vivendo sem pagar impostos e em compartilhamento de tudo. Além disso, está sobre o comando de um homem chamado Antônio, que está profanado a Igreja Católica e a nossa república.
            Agora, não poderei continuar o quadro, mas em breve voltarei para contar sobre as duas primeiras e fracassadas expedições militares."




            Este trecho trata-se acerca da primeira página do diário de nosso personagem principal, o grande Coronel Antônio Moreira César. Sua história esteve sempre marcada por conflitos e assassinatos, sendo a Guerra de Canudos a mais marcante e trágica de todas. Filho do padre Antônio Moreira César de Almeida e de Francisca Correia de Toledo, o Coronel era um homem agressivo, considerado o Anticristo, o Corta-Cabeças, o Treme-Terra. Apesar de sua fama, Moreira César era um homem “de figura diminuta — um tórax desfibrado sobre pernas arcadas em parêntesis — era organicamente inapto para a carreira que abraçara” como disse Euclides da Cunha em seu livro “Os Sertões”. O Coronel chegou até mesmo a nomear seus pais como desconhecidos ou incógnitos.
         O primeiro registro de seus envolvimentos violentos aconteceu em 1884 com o assassinato, feito por ele mesmo, do redator-responsável do jornal "O Corsário" no Rio de Janeiro. Moreira César também esteve envolvido em vários outros conflitos como A Sedição Baiana, em que em que se envolveu na derrubada do importuno presidente da Bahia, José Gonçalves da Silva. Após o incidente, nosso Coronel foi promovido ao desejado cargo de chefe da polícia. Infelizmente, ele se manteve por apenas um mês na função. Após a sedição, ele se envolveu em outra revolta, chamada Sublevação de Niterói, e seu papel foi fundamental para o desfecho do incidente: provavelmente o corpo policial que havia tomado a cidade não se renderia sem sua atuação. Sua presença nas revoltas da Armada e Federalista foi de grande importância, já que o aproximou do célebre Marechal Floriano Peixoto, sendo considerado por muitos como o seu provável sucessor. “Pelos relevantes serviços prestados, tendo sustentado tão importante posição e obrigado, com tiros de canhão, os navios dos insurretos a mudarem de ancoradouro em busca do fundo da baía, danificando-os seriamente." — Marechal Floriano gratificando o Coronel Moreira César pelos seus incríveis atos contra os rebeldes antirrepublicanos.
            Já na Guerra de Canudos — onde provou ser um verdadeiro patriota e defensor da república democrática brasileira —, Moreira César e seu poderoso exército desbravaram o sertão nordestino em direção ao arraial de Canudos, liderado por um antirrepublicano lunático, chamado por Antônio Conselheiro. Sua expedição para Canudos (a quarta do total) foi a única efetiva, impondo um presságio ao fim de Conselheiro e de Canudos. Entretanto, para a tristeza de todos, o Coronel Antônio Moreira César foi derrubado em batalha, provando ser um mártir e verdadeiro guerreiro defensor do Brasil.